Projeto Laura

Projeto Laura

Questão 1 : O Projeto Laura é uma grande contribuição que a UNIFEOB, proporciona à pessoas com deficiência visual; docentes e a sociedade de modo geral por meio do método Braille que inclui leitura e escrita. Como surgiu a idealização do Projeto Laura?

R: A idealizadora foi Mara Junqueira Franco. Era Professora da UNIFEOB , quando sua neta Laura foi acometida de uma doença que lhe afetara os olhos, e por conseqüência ficou cega, na tenra idade de menos de dois anos. Mara então transformou sua dor em amor pelas pessoas com deficiência, e criou com o apoio incondicional do nosso Reitor João Octávio Bastos Junqueira, o Projeto Laura na UNIFEOB.

Questão 2: Qual o objetivo do Projeto Laura?

R: Visa a inclusão da pessoa com deficiência na educação, mercado de trabalho e vida social. Bem como a inclusão das pessoas sem deficiência no universo das pessoas com deficiência.

Questão 3: Renata Melo você poderia contar-me sobre sua trajetória pessoal e profissional? Como você enfrenta as dificuldades e a superação de desafios que sua deficiência visual lhe impôs?

R: Minha deficiência visual, retinose pigmentar denominada Stargart, se manifestou aos meus 9 anos. No início, como era criança e criança se adapta fácil, não senti tanto, ia me adaptando sem perceber. É uma deficiência progressiva, mas esta progressão é lenta, onde acredito que fui aceitando e me adaptando com uma certa facilidade. Estudei pelos métodos tradicionais, porque na época lia sem recurso, e fiz até primeiro ano do antigo magistério. Fiz curso do método Braille na ADV e escola Hellen Keller de Ribeirão Preto, e depois voltei para aprender a ensinar o como ensinar o método. Sempre trabalhei com inclusão, em projetos sociais que sempre fui monitora, e abri em 1991 uma sala específica para crianças e adolescentes com deficiência visual na Escola Cáritas de São José do Rio Pardo, e esta sala funcionam bem até os dias de hoje. Fui sócia fundadora da AAGRADEF (associação amigos do deficiente físico de São José do Rio Pardo) existindo até hoje, visa a inclusão das pessoas com deficiência na educação e mercado de trabalho. Iniciei, e atuei por 2 anos, no projeto Vida Iluminada da Mulher Unimed de São José do Rio Pardo, onde ministrei aulas de Braille, computação adaptada com leitor de tela e orientação e mobilidade, bem como o apoio e esclarecendo os pais destes alunos especiais, que possuíam deficiência visual. Hoje estou no Projeto Laura da UNIFEOB.

Concomitantemente a estas atividades na área de deficiência e inclusão, fazia trabalhos profissionais como cantora. Fazendo shows, bares, casamentos, festas e Studio. Estas atividades faço nos dias de hoje, e incluí aulas de canto popular na escola de música Clac (centro livre de arte e cultura) de São João da Boa Vista-SP. Fiz também, na área de música, um trabalho voluntário, que amei, como maestrina do coral da terceira idade da UNIFEOB, que demos o nome de Canto e Encanto. Hoje não realizo mais, devido a outros compromissos, os quais demandam muito, e não consegui conciliar.

Na minha infância pratiquei esportes como natação, e conseguia, sem dificuldades, jogar voleibol. Ficava no saque, e no treinamento das que davam as cortadas na rede, eu conseguia fazer o papel de levantadora. Mas minha deficiência não permitia eu jogar para valer, e ficava feliz em participar desta forma, e ainda receber elogios do professor e das colegas. Hoje vejo tanto bullyng…fico triste, pois apesar de existir na minha época também, eu resolvia (risos), e isso era comum e normal, mesmo para mim. Estas situações faziam-me sentir incluída, e as que representavam um constrangimento eu “resolvia” (risos). Neste sentido, sinto que hoje houve um retrocesso, com a polêmica do tal bullyng, que como não é foco da nossa entrevista, não comentarei.

Casei em 1986, tive dois filhos maravilhosos, e, graças a Deus saudáveis. Divorciei em 2002, e desde então somos eu e meus filhos a conviver. Em 2009 a 2013 cursei Direito na UNIFEOB. O curso, os professores e a instituição me deram toda a acessibilidade para estudar com igualdade perante meus colegas de faculdade. Fiz estágio no escritório modelo Joel Lisboa Biotto, que pertence a UNIFEOB, e conveniado com a OAB. Recebi total apoio, fui atendida em minhas necessidades, fui advogada estagiária com muita alegria, pois não me sentia excluída, e sim uma profissional. Minha adaptação para todas as atividades foi o computador com leitor de tela. Fui apresentada a essa tecnologia em 1995 na AADV e escola Hellen Keller de Poços de Caldas-MG. Comecei com o leitor da UFRJ (universidade federal do Rio de Janeiro) chamado Dós Vox, e mais tarde, em 2004, pela Mulher Unimed, o Virtual Vision, que utilizava o sistema operacional WINDOWS, curso que fiz em São Paulo-SP, pela Fundação BRADESCO. Por último fiz o curso do leitor JAWS, já como aluna e voluntária do Projeto Laura UNIFEOB, de 2006 a 2008.

Trabalho como telefonista na Santa Casa de Misericórdia Dona Carolina Malheiros de São João da Boa Vista, desde 2013. Para esta função substituo tudo o que faria no papel, como listas de telefones de médicos e prestadores de serviços etc, e rascunhos para a anotação de pedidos de ligação, pelo computador com leitor de tela JAWS 15, e fazer ligação, transferir, deixar em espera é simples, e utilizo a tecla 5, que tem uma marca de fábrica, que é uma bolinha em alto relevo para nortear a pessoa com deficiência visual; e o computador tem estas marcas em relevo de fábrica nas letras f e j. Entrei na Santa Casa em 2005, como auxiliar em câmara escura, no setor de radiologia. Exercia a função de revelar os filmes de Raio X. Numa salinha escura, com apenas uma luz vermelha de segurança, realizava com destreza e eficiência meu trabalho. Quando ocorreu a digitalização da revelação dos exames, eu pedi para ir para a telefonia, pois sabia que podia realizar esta função, e saberia o como adaptar. Eu orientei os superiores sobre a adaptação, e fui atendida.

Procuro derrubar todas as barreiras que me são impostas. E quando são intransponíveis, não desisto, apenas mudo o caminho e o foco. No português rasgado: parto para outra (risos).

Questão 4: Você acredita que crianças e adolescentes com deficiência física ou com necessidades especiais possuem o direito à educação regular? Qual seu posicionamento sobre a inclusão desses alunos?

R: O direito elas têm, assegurado na Constituição Federal de 1988, e no ECA (estatuto da criança e adolescente). Porém a prática não tem mostrado que teoria e prática estão em harmonia. Exemplo claro foi na educação. Com a obrigatoriedade da “inclusão, crianças e adolescentes com deficiência ou necessidades especiais, adquiriram o direito de serem matriculadas no ensino regular. Sem critério, alguns, com deficiência mais grave, ficaram abandonados na escola. Culpa dos professores? Não. A culpa é a falta de estrutura disso, como ter auxiliares, equipamentos e recursos necessários para que esta inclusão fosse feita com eficácia e respeito. Levar em consideração, e reconhecer que, algumas deficiências ainda precisam de escolas especiais, as quais devem trabalhar em uma ação conjunta com a escola regular, ofereceria um ensino de qualidade para este aluno especial.

Questão 5: Qual sua opinião sobre a política pública atual para a inclusão de pessoas com deficiências físicas e com necessidades especiais na sociedade?

R: Inclusão é uma palavra de amplo sentido. Sendo prática diria que, a título de direitos avançamos bastante, porém a prática não nos mostra isso. Ao criar a lei de cotas, por exemplo, no mercado de trabalho, não nos ofereceram condições para que estes direitos fossem efetivamente gozados.

No mercado de trabalho falta, capacitação profissional de pessoas com deficiência, e a empresa a recebê-la tenha estrutura física, como de relacionar-se com este profissional diferenciado. As empresas teriam que, olhar o candidato com deficiência, como outro qualquer candidato ao emprego, e ter consciência de que sua deficiência é só uma característica, devendo com isso explorar competências e habilidades do profissional especial.

 Questão 6: Você acredita que a sociedade brasileira está preparada para acolher as pessoas com deficiência?

R: Não. Embora já tenha-se avançado muito neste sentido, falta muita informação e esclarecimento, pois é um mundo diferente no tocante ao modo de vida diária.

Questão 7: A sociedade, de modo geral, precisa estar capacitada para receber os deficientes com respeito e responsabilidade que merecem, tanto no direito à educação que possuem como na sociedade. Nesse, sentido a UNIFEOB, oferece o curso de Braille gratuitamente, à pessoas com deficiência visual; docentes e a sociedade de modo geral. Qual a sua perspectiva em relação a essas inclusões?

R: Em relação a pessoa com deficiência visual a inclusão repousa na independência, que a leitura e escrita pelo método Braille proporciona a toda pessoa com deficiência visual: a escolha de produtos a comprar (uma vez que hoje é cada vez maior a adesão da indústria em deixar suas embalagens acessíveis de leitura para a pessoa com deficiência visual, colocando as instruções e nome do produto em Braille), leitura de livros, que é a forma, com exceção do computador, da pessoa com deficiência visual ler. Para o docente, é a oportunidade da capacitação para ensinar o método para o aluno com deficiência visual, bem como saber lidar com aquele que já usa o método. A sociedade em geral, quando é apresentada para as realidades do mundo da pessoa com deficiência, e no nosso caso a visual tem condições de quebrar preconceitos, mudar comportamento, e com isso tratar a pessoa com esta deficiência em escopo, da forma adequada e eficaz, facilitando a inclusão que, é uma via de duas mãos. Uma observação positiva: Geralmente, em grandes centros, o comércio já vê a pessoa com deficiência, como um cliente em potencial. Vi algumas reportagens que falaram sobre isso, inclusive com dados estatísticos. Infelizmente são poucos, os empresários que têm esta visão. Mas acredito no crescimento desta mentalidade, na medida em que, as pessoas com deficiência vão tomando consciência de seus direitos, com isso deverão lutar pela sua qualificação profissional, engressando mais no mercado de trabalho, e consequentemente se tornando o cliente em potencial.

Vanessa muito obrigada pela oportunidade desta entrevista. Deixo minha frase que talvez fale mais sobre mim, do que mil palavras:

“Assim conduzo minha vida, aquilo que me abate de alguma forma, rebato da melhor forma.”

 

Colaboração: Vanessa Gomes